terça-feira, 5 de julho de 2011

Aspergilose Cerebral


A aspergilose representa um espectro patológico determinado por espécies do gênero Aspergillus (fumigatus, flavus, niger, terreus, sudowi, ustus, versicolor, amstelodami, oryzae, candidus, restrictus, nidulans), que são os fungos mais comuns do planeta, presentes no solo, adubo, feno, cereais, vegetais e até em ambiente hospitalar. Penetram no organismo humano por várias vias, especialmente, inalatória e se alojam inicialmente, nos seios para-nasais1-3 e a seguir invade as vias aéreas inferiores. O pulmão é o órgão predominantemente envolvido. Os neutrófilos, macrófagos e monócitos são fundamentais para a sua destruição. O fungo, se for capaz de ultrapassar as defesas humanas, é angiotrópico, promovendo destruição vascular com infarto, necrose, trombose e hemorragia texturais. O acometimento de pessoas imunocompetentes caracteriza-se, principalmente, por reação de hipersensibilidade dirigida ao aparelho respiratório e envolvimento saprofítico de cavidades pulmonares (caverna). A sua capacidade de invasão de órgãos e tecidos (invasão pulmonar, abscesso cerebral, infecção disseminada) associa-se, usualmente, com imunossupressão de várias etiologias. O acometimento do sistema nervoso central (SNC) é muito grave, com 75% a 100% de morte, apesar do tratamento intensivo com anfotericina B (anfB). O diagnóstico é difícil, freqüentemente realizado à necropsia. A preocupação com a aspergilose cerebral é assunto atual devido ao aumento de sua incidência nos últimos anos, em decorrência, principalmente, do maior uso de imunodepressores, da disseminação do vírus da imunodeficiência humana (VIH) e da síndrome da imunodeficiência adquirida (SIDA). A invasão do SNC por Aspergillus sp. pode ocorrer pela via hematogênica, como manifestação da disseminação sistêmica, ou por contigüidade, pelas estruturas contaminadas, principalmente pelos seios para-nasais e pela mastóide, após traumatismo crânio-encefálico, por punções lombares repetidas para tratamento intratecal com penicilina2 e ainda após manipulação neurocirúrgica.

O primeiro caso de Aspergillus no SNC após uma neurocirurgia foi descrito em 1973. Este trabalho descreve caso semelhante, em que uma paciente evoluiu com abscessos frontais por Aspergillus sp, após o tratamento cirúrgico de um aneurisma intracraniano. A diferença deste caso está na higidez prévia à neurocirurgia, da paciente objeto deste relato, em que, apesar da reserva do prognóstico, obteve-se sucesso terapêutico com a combinação de cirurgia de drenagem e uso de anfB. Parece ser o primeiro caso descrito no Brasil de sucesso terapêutico na aspergilose do SNC após neurocirurgia.